TEMPO ARENOSO – Blog do Juan Esteves

> TEMPO ARENOSO (Olhavê, 2015) da fotógrafa paulista Elaine Pessoa resulta da produção de imagens no Rio da Prata, na verdade um estuário (o maior do mundo), que banha Argentina e Uruguay em suas capitais Buenos Aires e Montevideo, onde nesta última fotografou de forma analógica entre 2013 e 2014. Um rio que, como ela comentou à época da sua exposição na Galeria Ziper, em 2016, “quase não corre, que parece mar, e que talvez quisesse ser um lago.”

Traz uma série de delicadas duplas exposições que através da morna paisagem e seus parcos frequentadores evocam um melancólico encanto, realçado pela tonalidade pálida amarelada do papel Pólen Bold, de 90g, impresso pela gráfica Ipsis. Livro numerado e assinado com apenas 500 exemplares. Entretanto, sua obra é mais que isso.

É com otimismo que vemos parte da fotografia dita contemporânea contemplar com mais atenção o exercício do pensamento e de uma prática que não fique refém somente de sua estética ou de propostas somente objetivas e informativas. Embora, longe de ser algo simples, é uma ação que demanda cuidado e dedicação. Não basta criar imagens sem significados e trazer um “curador” para explicá-las depois, bem como propor um conteúdo vazio que despreze as relações ontológicas de maior profundidade e suas implicações fundamentais. Pensando nisto, vemos Elaine Pessoa criar um precioso amálgama em seu livro.

 

É embasado na relação entre a autora e sua orientadora, a antropóloga e curadora pernambucana Georgia Quintas, através de um processo evolutivo em sua edição, conceito da obra, referências teóricas e leituras que se relacionaram com a discussão sobre a passagem do tempo. Entendendo por isso as relações entre memória, latência e narrativa ficcional, uma proposta impulsionada pela filosofia do francês Henri Bergson (1859-1941) e pela literatura do uruguaio Mario Benedetti (1920- 2000). O livro foi um dos indicados como melhor do ano pelo PHotoEspaña.br.

Adianto que Tempo Arenoso não requer exatamente um leitor-modelo como sugere o pensador italiano Umberto Eco (1932-2016), mas de certa forma não prescinde completamente da compreensão de seu destinatário. É uma obra que não busca dificultar ou complicar a relação conteúdo-leitor, uma vez que revela uma determinada incompletude, mas sim problematizá-la. Ainda pensando que esta relação não se dá corriqueiramente, talvez seja necessário lembrar do desejo epistemológico na distinção do que são imagens com conteúdo daquelas sem nenhum.

Elaine Pessoa produz suas imagens de maneira a romper com os paradigmas da racionalidade mas sem abdicar de uma necessária proposta visual que permita o leitor alcançar o percurso oferecido. Está longe de possuir uma narrativa linear, diz Alexandre Belém, co-editor do livro juntamente com Georgia Quintas, assim como propõe que a questão temporal possa ser ficcionalizada. Nesta engenhosa disposição, a pequena publicação se reveste de grandeza.

Pensemos então em uma abordagem a partir de uma experiência estética construtivista. Traz igualmente um modo bergsoniano, que a priori foi o vetor entre fotógrafa e curadora. É evidente que a realidade vivenciada pela autora, tem sua “duração real” como afirma o filósofo, se desenrolando na consciência. A transformação das experiências fotográficas e o caráter intuitivo das sobreposições acabam por gerar uma “vivência genuína”, momentos intensos que claramente trazem uma durabilidade real, o que nos leva de volta a natureza intrínseca da fotografia na busca pela sua permanência.

Aproximamos aqui mais um pensador, o francês Michel Foucault (1926-1984), se olharmos para as ocorrências triviais que conduzem a problematização da proposta no sentido de desnaturalizá-las a partir de um necessário distanciamento, matéria que Elaine Pessoa promove já nas dicotomias do título Tempo Arenoso (o que é abstrato e o que é concreto) e no vínculo entre o rio e as pessoas que o frequentam ( o exercício da razão humana e o universo natural e seus fenômenos). Uma essência filosófica, contida na experiência das possibilidades que avançam para o interior das poucas páginas da publicação com suas poéticas imagens.

É claro que a problematização destas memórias reconstruídas, não sumariza apenas em trabalhar algo preexistente ou tampouco o discurso de algo que parece não existir, como pensa o francês. As fotografias aqui ampliam sua ideia de afastamento de uma realidade concreta, rumando para uma idealização memorialista mais abstrata e ainda sim esteticamente bela. Seu apelo imagético e sua clara posição cognoscente, nos levam a olhar com atenção suas imagens, antíteses da platitude e felizmente apartadas do reducionismo continuamente encontrado em meras mensagens alegóricas.

Texto © Juan Esteves

Disponível em: Blog do Juan Esteves

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